sábado, 18 de julho de 2026

Dia #38 - O professor, o aluno, e a ironia de um banho.

Eu ainda não tô muito pronto pra falar do Messi. O que ele tem feito nesse Mundial reforça a natureza extraterrestre dele, e acho que vou, pela primeira vez, falar de alguém no off-season deste blog, depois da Copa. Mas no que muitos chamaram de Copa dos Protagonistas, ele certamente é o grande protagonista desse time argentino.

foto gerada por IA
Agora, quem é o protagonista do bom time espanhol? Muitos diriam que é a classe do Rodri, outros a raça do Cucurella, mas a maioria diz que é Lamine Yamal. Ele, porém, ainda não desabrochou de verdade nesse Mundial. Fez o primeiro gol da Espanha na Copa, sim, mas só no segundo jogo, e segue devendo aparecer como grande destaque numa partida decisiva. É personagem, sem dúvida, e a icônica foto que reapareceu na Euro 2024 só alimenta mais essa história (Essa foto aqui é gerada por IA. Deixo o link pra quem quiser se aprofundar na história da foto original, feito por Joan Monfort para o Diario Sport, vale a pena). Mas, do ponto de vista futebolístico, o que dá pra dizer é que ele está cumprindo muito bem a função tática dentro de uma seleção espanhola bem arrumada.

E é aí que mora o ponto: postura tática é a grande chave dos dois times que chegaram à final.

A Argentina tem tática consistente, mas peca em alguns momentos, talvez pesando a média de idade mais alta do elenco. Ainda assim, consegue manter a calma e, principalmente, a postura em campo quando precisa. Não é normal. Mesmo devendo no placar, faz pressão de forma consistente e objetiva, com cadência de passe e tentativas de entrada das mais diversas. Foi assim pra desbloquear a entrada de Messi contra Cabo Verde. Foi assim pra encontrar os 3 gols contra o Egito. De novo assim pra se impor mesmo jogando pior contra a Suíça, quando veio a vantagem numérica. E na fatídica semifinal contra os ingleses, intensificou a postura ofensiva, respondeu ao adversário que resolveu só se defender, e usou da genialidade de dois grandes astros (o chute de Enzo, o cruzamento de Messi) pra marcar aqueles gols.


Já a tática em si é a grande marca da Espanha. Tomou um susto na estreia contra Cabo Verde, mas dali em diante não teve mais nenhum soluço. Entrava em campo, aplicava o que tinha treinado, saía vitoriosa. Às vezes o resultado vinha com muita tranquilidade, como contra Áustria e Bélgica. Às vezes na insistência, como contra Portugal. E na semifinal, o que dizer. O mundo inteiro dizia que a França era o melhor time desde o Brasil de 70, mas no fim pareceu o Brasil de 82: muito talento, sem capacidade de execução quando o negócio pegou de verdade. A Espanha não tomou conhecimento, fez um jogo extremamente seguro, ganhou sem hesitação. O primeiro chute francês no alvo só saiu na metade do segundo tempo, perto da parada de hidratação.

O que não aparece tanto é o mérito de quem construiu essa tática, de quem trouxe os dois times até aqui: os técnicos Lionel Scaloni e Luis de la Fuente.

Apesar dos quase 10 anos de diferença de idade, a relação entre os dois é bem mais próxima do que uma final costuma sugerir: Scaloni foi aluno de De la Fuente no curso preparatório de treinadores, na Espanha. Os dois assumiram suas seleções em momentos turbulentos das respectivas federações. Scaloni chegou pouco antes do ciclo passado e já tem uma Copa no currículo. De la Fuente passou por toda a base espanhola antes de virar treinador principal, e conhece boa parte do elenco atual desde moleque.

foto: ESPN/Getty Images

Enquanto Messi e Yamal protagonizam as narrativas na frente das câmeras, essa outra dupla ta frente a frente, quase sem holofote nenhum: o professor e o aluno, De la Fuente e Scaloni, dois caras que se admiram publicamente, que se cumprimentam com respeito de sala de aula, estão no auge da tensão, prestes a disputar a partida mais importante das suas carreiras.

Futebol tem dessas ironias bonitas. Um dia vc pode estar dando banho numa criança, ou dando aula pra um jovem aluno, e no outro, de frente com ele disputando quem vai ficar pra história.

sábado, 11 de julho de 2026

Dia #25 - Caindo em tabus mitológicos

Continuando a subida, o próximo obstáculo era uma parede gelada em uma terra de fiordes, grandes paredes rochosas, íngremes, difíceis de escalar. A mitologia local diz que são protegidos por criaturas gigantescas, fortes e hostis, chamadas trolls. Na Noruega, eles representam uma simbologia à população, especialmente às crianças, de que enfrentar os fiordes sozinho tem muitos perigos.

Bem, aqui tínhamos também nossa mitologia a ser enfrentada: a Noruega carrega o posto de única seleção que já enfrentou o Brasil em partidas oficiais e nunca perdeu. NUNCA.

O brasileiro gosta de um tabu, especialmente quando é a favor. Quando é contra, acaba pesando ainda mais. Até novembro do ano passado, mais um país, o Senegal, também carregava esse posto. Mas a Seleção, já sob comando do mister Ancelotti, quebrou esse tabu numa vitória por 2x0. Era um ponto que nos levava a acreditar que esse também poderia ser quebrado.

O primeiro tempo começou com um susto, gol deles, mas em jogada irregular. A resposta veio à altura: aos 9 minutos, Matheus Cunha é derrubado na área, e depois de análise do VAR, o juiz marca pênalti. Aqui, uma grande polêmica do jogo: Vinícius Jr dá a bola pra Bruno Guimarães bater, e ele para nas mãos do goleiro Nyland, numa cobrança ruim. Justamente ele, que era o motor desse time até ali, perdeu o brilho nesse momento. Depois do jogo, a justificativa do técnico foi que o percentual de acertos dele era maior do que o de Vini. Mas ele tinha batido 3 pênaltis, e o atacante, 19, no mesmo período.

O time até manteve o ritmo, e até os 40 minutos foi dominante, criando mais 3 ou 4 chances claras, com Vini, Martinelli e Matheus, mas errando o último passe ou parando num goleiro inspirado.

Reprodução CazeTV

Então, já ao final do primeiro tempo, parecia que o troll estava acordando. Haaland, a grande estrela do time, 1,93 m, cabelo longo e loiro (segundo dizem, recomendação de Zlatan Ibrahimović no início da carreira), com uma feição nada agradável, aparece em desvios importantes que dão trabalho ao goleiro Alisson. Odegaard, o cara mais pensante, também gera oportunidades e exige defesas difíceis do nosso arqueiro.

No segundo tempo, o começo até parece promissor. Endrick entra na primeira metade, recebe uma bola de Vini Jr, sai cara a cara com o goleiro, tira dele, mas a bola vai pra fora. E a última grande cena dele nessa Copa é ele no chão, com cara de inconformismo pelo erro cometido. Logo antes da parada para hidratação, Ancelotti faz mais duas mexidas, e põe Neymar e Danilo (o Santos), tirando Rayan e Martinelli. Errado fazer isso logo antes da parada, e dar tempo do técnico adversário reorganizar o time. E tirou o Endrick do centro pra deixar o Ney, colocando-o na ponta, fora do seu melhor rendimento.

Antes dessa mexida, o jogo tinha um meio de campo disputado, muito povoado, com Rayan e Martinelli voltando bastante, atuando no apoio. Depois, o Brasil perdeu completamente o embate. Vini Jr já não volta. Endrick não volta. Neymar, nem se fala. Ali o fiorde ficou gigante, estremeceu, e armou uma avalanche em cima dos que tentavam ultrapassá-lo.

Reprodução/Instagram @herrelandslaget
E, pra ajudar, Erling Haaland encarnou o troll que realmente acordou. Na primeira tentativa, chegou ligeiramente atrasado e deixou escapar. Na segunda, aos 34 minutos, subiu muito mais alto que Gabriel Magalhães e cabeceou sem chance pra Alisson.

A Seleção até tentou, criou uma ou outra oportunidade, mas nada contundente. Não tinha nenhum domínio do meio-campo, e não conseguia dar medo. Aí, aos 45, o troll recebe de novo, sem marcação, no bico da grande área, dá uma ajeitadinha, chuta muito forte, sem chance de defesa. E sela o destino brasileiro.

No final, já com 45+7, Casemiro sofre outro pênalti. Neymar bate e marca. Mas ainda quis tirar satisfação com Nyland, mostrar "quem ele era". Sinceramente, ele selou o retrato de uma geração do Brasil que até tinha talento, mas achou que era muito mais do que conseguiu mostrar que era. Geração que teve lampejos de brilho, chances interessantes, mas que sempre quis se impor pela tradição e pela fama mais do que pela bola. No fim, ganhou de consolação um gol de pênalti, pra dizer que fez o gol e não saiu com o placar completamente vazio, mas que não vale tanta coisa.

É a queda mais precoce da Seleção desde 1990, quando também caímos nessa fase, pra Argentina. E em 2030 vamos completar 28 anos sem título, o maior jejum desde que aprendemos a ganhar.

A mitologia segue mais forte, os trolls seguem assustando quem encara os fiordes sozinho. O tabu está mantido, a Noruega nunca perdeu para o Brasil. Fica também um consolo pequeno: Rayan e Endrick mostraram que, quando chegar a montanha nova pela frente, tem gente nova com força pra escalar.

reprodução: X.com/oledobrasil

Fica ainda uma desconfiança que não se dissipa: a de saber que, a priori, Carlo Ancelotti segue no comando até a próxima Copa. Ele chegou como resolução pra todos os problemas, e até destravou um outro tabu em novembro, é verdade. Entrou de cabeça na cultura, e foi emblemático vê-lo cantando o hino brasileiro durante os jogos. Mas será que em 4 anos ele será capaz de absorver o que 210 milhões sentem há 28?

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Dia #19 - A vez do Monte Fuji

Passamos a terra de montanhas, conquistamos as terras altas. A subida ficou mais íngreme agora, com uma resistência colossal, a possibilidade de tremores no percurso e um vulcão adormecido. O obstáculo agora é o Monte Fuji.

O Japão no futebol é praticamente um filho do Brasil. A influência do Zico e Alcindo (o careca cabeludo) é sabida e notória. O grande êxodo de jogadores durante os anos 90 moldou o que é a competitividade da J League (liga principal de lá). Mas oficialmente, temos apenas uma derrota para eles. Exatamente o último jogo, e já com Ancelotti no comando.

Etsuo Hara/Getty Images

Apesar disso, o jogo veio cercado de muito otimismo. A forma como acabou o jogo contra a Escócia entusiasmou a opinião pública (e também os jogadores), e o bordão "tão deixando a gente sonhar" começou a aparecer cada vez mais forte.

No começo do jogo, parecia que uma vitória seria bem natural. O volume de jogo era todo brasileiro, sempre no ataque. Mas sempre contra um time japonês muito compactado, com uma linha de 5, uma linha de 4 e um jogador na frente atrapalhando a saída. A Seleção se comportava como um alpinista bem disciplinado, um passo de cada vez. Um pouquinho mais pra cima a cada minuto, parecia mesmo que era questão de tempo chegar ao cume.

Mas toda subida de verdade tem aquele trecho que você tem certeza que vai rolar morro abaixo. Não só isso, você escorrega, perde altura, se esforça pra se segurar, mas no caminho se rala todo. E foi isso que o time sentiu quando, aos 29 do primeiro tempo, num erro de Danilo, o meio-campista Sano sai em disparada e chuta de meia distância uma bola inalcançável pra Alisson.

O resto do primeiro tempo foi de contenção de danos, se segurando pra não escorregar mais.

No intervalo, Endrick entra no lugar de um Paquetá machucado. Voltam também todos os outros, incluindo um Danilo perdido e um Casemiro cansado, com meio Brasil irritado com ele.

Ter Endrick tanto tempo em campo trazia uma nova esperança. Ele começa mudando o ímpeto, e o time volta ao ritmo de escalada pra cima. Mas o Japão era 100% atrás da bola, a sensação era a desse meme aqui:

reprodução: Facebook

Pra furar, tentávamos lampejos de bolas cruzadas de ponta a ponta seguidos de toques no meio da área, numa área bastante congestionada. Num desses, Casemiro, o mesmo sonolento do primeiro tempo, cabeceou de peixinho e o zagueiro japonês tirou em cima da linha, contando com um lampejo de sorte. Tava impossível atravessar a muralha!

No lance seguinte (aos 9 do segundo tempo), Vini Jr vai até o fundo, toca pra trás pra Gabriel Magalhães, que cruza na medida, e lá está Casemiro de novo, decidindo no alto pela segunda vez em poucos minutos. Dessa vez sem goleiro pra salvar. 34 anos, e ainda é ele quem aparece na hora exata. Ignorando as críticas. Segundo jogador mais velho da história a marcar pelo Brasil numa Copa, atrás só do Bebeto.

Com o jogo empatado, o Brasil mantém o momento bom e continua no ritmo de ascensão. E isso é ditado por um motor chamado Bruno Guimarães, o BG. Ele é, sem dúvida, o melhor jogador desse time na Copa, mais até que o Vini. É ele que dita o ritmo, marca o passo da subida.

A pressão continuou. No lance seguinte, Vini Jr dribla vários zagueiros e toca tirando o goleiro, mas ela bate caprichosamente no pé da trave. seria o gol mais bonito da copa até aqui.

A escalada que continuava, todo mundo já procurava o posto de segurança pra descansar, antes do novo sprint que viria na prorrogação. Mas Ancelotti queria acabar com o jogo ali, italiano tem trauma de pênaltis. Põe em campo Martinelli, quando todo mundo pedia Neymar. Ele mandava pressionar. O Brasil sufocava um bravo time japonês.

REUTERS/Annegret Hilse

Aos 50, Endrick corre pela direita, em mais uma tentativa que angariava atenção de mais de um zagueiro, mas não gerava perigo real. Só que nessas, o time todo sobe. Rayan pressiona depois de Endrick perder a bola, rouba, acha o maestro Bruno no meio da área. Quando qualquer jogador chutaria no desespero, ele acha Martinelli, rola a bola pra ele depois da marca do pênalti, e não chuta forte, coloca cruzado. A bola caprichosamente toca na trave oposta e entra.

Bandeira fincada no topo do Fuji, já escurecendo, time exausto, mas em pé. Brasil nas oitavas. Que venha Haaland, a Noruega.

O melhor meme depois não podia ser outro: eu teria tirado o Casemiro no intervalo. Eu não teria colocado o Gabriel Martinelli. Por isso que acordei terça e fui trabalhar num escritório, e Carlo Ancelotti tá nos EUA dirigindo a seleção.

sábado, 27 de junho de 2026

Dia #14 - Alcançando as Highlands

 Mantendo a temática geográfica que esse blog tomou nessa copa, podemos dizer que chegamos à nossa versão das terras altas do torneio até aqui.

Dizem que as Highlands escocesas são belas justamente porque são hostis. Penhasco, vento, subida que não termina, aquela sensação de que o terreno foi desenhado pra te cansar antes de chegar lá em cima.

fonte: Rebecca Blackwell / AP Foto
Mas na nossa versão atual, o que tivemos foi uma Seleção Brasileira que enfrentou a hostilidade do contexto e da pressão de frente, e ignorou todas essas dificuldades.

Dá até pra dizer que tivemos um time irreconhecível, a comparando ao que vimos nos últimos 12 meses, mas totalmente plausível se considerarmos os últimos 70 anos.

Claramente uma atitude extremamente decidida. Teve volume de jogo, dominou a partida sem contestações. Não dá pra dizer que a Escócia foi uma ameaça em momento nenhum.

De novo, um Vini Jr. incisivo, que chamou a responsabilidade, que decidiu. Ele foi o responsável por chegarmos a esse topo, a essa terra alta até aqui. Dois gols no primeiro tempo.

O primeiro, logo no começo, após pressão de Rayan, (a novidade do dia no lugar do machucado Raphinha), na saída de bola dentro da área. A bola sobra pra quem estava no lugar certo e sabia exatamente o que fazer com isso. Depois, mais uma pressão do próprio Vini, que rouba e marca, mas o VAR anula. E não sabemos até agora por quê, já que o áudio da explicação do juiz não funcionou.

O segundo de verdade, no apagar das luzes da primeira etapa. De novo pressão e desarme em cima do zagueiro escocês, cruzamento de Bruno Guimarães para cabeçada de Vini Jr. dentro da pequena área. Ótimo primeiro tempo do Brasil. Fantástico de Vinicius Jr.

fonte: @FifaWorldCup
O outro destaque real do jogo foi Bruno Guimarães. Ele foi o cara que deu cadência ao time, que organizou a saída, que leu o espaço antes do espaço existir. É o tipo de jogador que, quando funciona, faz o time parecer mais simples do que é. Matheus Cunha fechou em 3 a 0 com assistência do próprio Bruno. Uma jogada que começa lá atrás no campo de defesa, vem de pé em pé vencendo a pressão dos defensores, cai para Bruno que finge driblar mas deixa o centroavante cara a cara com o goleiro. E a comemoração do surfista pro mundo todo ver.

Resultado feito, espaço pra testar.

Aos 30 do segundo tempo, Ancelotti sucumbe ao clamor popular e coloca Neymar em campo. Vinte minutos a jogar, partida já resolvida, camisa 10 em campo pela quarta Copa do Mundo, recuperado de lesão, ainda encontrando o ritmo. Não precisa provar nada. Ou precisa? Talvez só estar ali já diga alguma coisa. Fato é que ele existe.

E depois de Neymar, Endrick. Infelizmente não fez grande coisa, e não tinha como fazer grande coisa. Mas estava lá. Na Copa do Mundo. Aos dezenove anos. Isso vai ser importante mais adiante, eu tenho certeza.

O Brasil chegou ao topo das Highlands sem precisar de drama. Às vezes a subida não é tão íngreme quanto parecia lá de baixo.

Segunda-feira, Houston. Que venha o Japão. A escalada continua.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Dia #9 - Atravessando as montanhas

 Haiti é uma palavra que vem da língua indígena Taína e significa "Terra de Montanhas". E era exatamente uma, ou várias, montanhas que a Seleção precisava transpor nesse jogo.

Com todo respeito por tudo o que representa a classificação dessa pequena ilha ao Mundial, deixando de fora nomes mais "tradicionais" no futebol como Costa Rica e Honduras, vencer o time do país mais pobre das Américas não era a principal montanha que o Brasil precisava atravessar.

Mauro Pimentel / AFP

A montanha da desconfiança é muito maior.

Críticas de um país que cresceu sendo chamado de o país do futebol, mas que não se vê no papel de maior de todos já há 24 anos. E nunca soubemos passar tanto tempo assim, desde que ganhamos a primeira vez.

Bom, mister Ancelotti trouxe duas mudanças: Matheus Cunha no lugar de Igor Thiago, e Danilo no lugar de Ibañez. Nada de Endrick.

O jogo começou ainda assim tenso. As montanhas ainda pareciam vários Everests. Até que Bruno Guimarães começa a arriscar enfiadas entre os zagueiros que criam ocasiões pro nosso ataque. Raphinha duas vezes chega bem perto, uma delas até marca, mas em ambas estava impedido. Quando aos 23 a tentativa é do lado esquerdo com Vini Jr, a jogada evolui em finalização, o goleiro espalma pro meio da área e Matheus Cunha cumpre bem o papel de centroavante, luta pelo rebote e a bola entra. Se foi dele ou não não ficou tão claro, mas importa que foi.

A montanha do primeiro gol estava vencida. Nesse momento as montanhas já ficaram com cara de colina. Mais 19 minutos, contra-ataque rápido, Vini acha de novo Cunha cortando pra esquerda na área, ele arremata e sai pro abraço.

Aqui as montanhas viraram morrinhos. Que não foram páreo pra um passe alto e profundo de Paquetá achando Vini Jr pelo mesmo lado esquerdo de sempre. Ele chuta por baixo do goleiro, e temos 3x0 ainda no primeiro tempo.

Na volta da segunda etapa, a expectativa era de pelo menos mais 3. Rayan tinha entrado no lugar de Raphinha, machucado. Mas quem cresce são as montanhas haitianas novamente.

Reuters/Mike Segar
Brasil deu poucos chutes, com pouca direção. Aos 20, Martinelli e, finalmente, Endrick entram. Levam mais perigo.

Gabriel Martinelli põe uma bola no travessão depois de passe de calcanhar de Vinícius.

Quando aos 32, Rayan acha Endrick na entrada da área, ele recebe e fuzila no meio das pernas do goleiro, e sai comemorando. O Brasil inteiro junto. Porém, algo como meio palmo de adiantamento leva o bandeirinha a anular o gol. Meio palmo...

No fim, foram só os 3 do primeiro tempo mesmo. As montanhas foram transpostas, mas por trilhas mais difíceis que se imaginava.

O que fica é que foi bom ver os novos em campo. Rayan chegou sem avisar. Endrick marcou um gol que não foi, e por muito muito pouco. As montanhas ainda existem. Mas pela primeira vez em muito tempo, parecem escaláveis.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Dia #5 - Vozinha, Tordesilhas e o dia do empate

 Cabo Verde, na minha mais antiga memória, era a ilha usada pra definir que 370 léguas a oeste dela existiria uma linha imaginária, que dividia as terras do novo mundo entre o Reino de Portugal e a coroa Espanhola. O chamado Tratado de Tordesilhas.

fonte: Getty Images
Hoje, Cabo Verde é a terra de Vozinha, "guarda-redes" de 40 anos, que para o futebol é realmente um vovô. Terra de pouco mais de 500 mil pessoas, que formou uma equipe brava e segurou com maestria uma gigante. A mais favorita ao título, na cabeça de uns. Cabo Verde apresentou um time guerreiro, que ninguém conhecia, muito bem postado taticamente.

Foi um jogo desses que a Copa do Mundo nos promete, e a gente tem o privilégio de estar vendo. Sim, é verdade que a Espanha jogou muito mal. Não consigo nem dizer que entrou de salto alto. Algumas poucas infiltrações do folclórico Cucurella, que usava seus cabelos esvoaçantes pra cabecear bola pro meio da área, foram as melhores tentativas europeias, sempre parando nas mãos de Vozinha. Lamine Yamal, a grande estrela, voltando de lesão ficou no banco. Certamente o técnico De La Fuente acreditou que não ia precisar dele para conseguir a vitória. Mas foi só quando ele entrou (e estreou em Copas do Mundo), aos 26 minutos do segundo tempo, depois da segunda pausa pra hidratação, que a Fúria levou perigo mais intenso. Sempre parando nas mãos de Vozinha.

Mas nesse momento, tirando os 50 milhões de espanhóis, o resto do planeta estava todo torcendo pra Cabo Verde. E o time segurou bravamente o empate, quase marcando no final inclusive.

O empate teve sabor de uma grande vitória. Um 0 a 0 que fica na memória. E que teve até um recorde que entrou para a história das Copas: Cabo Verde fez apenas UMA FALTA o jogo todo. Só uma.

fonte: Opta, via Bruno Imaizumi, no Linkedin

No fim, Vozinha e seus companheiros deixaram mais uma marca na história, dessa vez a 1156 léguas a oeste da ilha de Cabo Verde (distância da ilha até Atlanta, segundo o Claude).

Preciso deixar um registro típico desses tempos: ao final do jogo, o Casemiro, na transmissão da CazéTV, puxou um "mutirão" pra aumentar os seguidores no Instagram do goleiro caboverdeano. Que eu consegui acompanhar, saiu de 391 mil no apito final para mais de 1 milhão, em 4 minutos. Mas sei que às 8 da noite já eram 3,4 milhões. E apareceram vários perfis no mundo inteiro querendo entender o fenômeno que aconteceu com esse personagem.

A Espanha, agora, continua vivendo a sua maldição dos campeões. Com o de hoje, são 12 jogos desde o título em 2010 em terras africanas. E somente 3 vitórias.

Essa história de Cabo Verde é a maior história da Copa até aqui. Mas o dia teve outras crônicas que valem ser registradas. Hoje foi proibido ganhar: 4 jogos, 4 empates.

Além de Espanha e Cabo Verde, tivemos Bélgica 1x1 Egito: a eterna geração de ouro belga sofreu pra chegar no empate, e continua decepcionando.

Arábia Saudita 1x1 Uruguai, com os Sauditas surpreendendo mais uma seleção sul-americana. (lembram disso?). Aliás a liga saudita cheia de estrelas tá começando a render frutos, não?

E Irã 2x2 Nova Zelândia. Esse último jogo do dia merece mais registros. Primeiro, o fato de o Irã ter entrado em campo depois de todo o contexto de guerra. Jogaram em Los Angeles, mas dormiram no México. Segundo, a Nova Zelândia, mais organizada do que o esperado. Vale o registro que nessa 3ª participação em Copas do time All White — que estava de preto —, o time soma 7 jogos, 4 empates (como esse aqui) e 3 derrotas, todas em 82. Pode dizer que não perde um jogo de Copa há 44 anos...

domingo, 14 de junho de 2026

Dia #3 - Estreia

 Todo mundo esperava um jogo difícil. Mas não tanto.

A seleção marroquina é bem ajeitada, troca passe curto, domina o espaço, mas também agride. Hakimi, Bouaddi e Brahim Diaz são a espinha dorsal de um meio campo consistente.

Do nosso lado, Casemiro estava numa tarde horrenda, Paqueta idem. Bruno Guimarães fazia o básico com dificuldade, o que na conjuntura, já era uma conquista.

Brasil foi dominado no começo do jogo. Tentou alguma correria no ataque, sem nenhuma organização. Marrocos dominava, trocava passes, envolvia, chegava. Não tenho medo de repetir André Kfouri e dizer que foram os piores 30 minutos iniciais do Brasil desde aquela fatídica tarde do 7 a 1, guardadas as devidas proporções.

Quando a Seleção esboçava mais volume no ataque, ainda que sem muita ordem ou intenção, o bom Brahim Diaz acha um lançamento em profundidade. Ibanez e Magalhães ambos fazem o giro de forma errada, o buraco entre eles se forma, Saiabri desponta em velocidade, e com um toque encobre Alisson sem chance de reação. Bonito gol. Vantagem africana.

Marc Atkins / Getty Images

Com a vantagem, o time africano se solta ainda mais. O Brasil não conseguia trocar 3 passes consecutivos, dependia de bola espirrada e correria. Aos 32, em mais uma bola assim, Vinicius Júnior, que até então tinha tocado na bola uma vez apenas, deixou aflorar a malemolência do brasileiro, corta pra dentro depois de chegar na linha de fundo, e faz o gol.

Nesse momento, Marrocos sentiu. O Brasil equiparou. Aqui pra nossa sorte pesou a diferença entre Brasil e Alemanha, e conseguimos controlar, e não descambar como foi naquele dia em BH. Legal essa arte que foi pra transmissão, com a intensidade de cada time em cada momento do primeiro tempo, e como os gols pesaram nisso.

fonte: transmissão oficial


Ancelotti volta com duas substituições no intervalo. Fabinho por Casemiro, Danilo por Ibanez.
Mais duas com 7 minutos. Matheus Cunha por Igor Thiago, Luiz Henrique por Paquetá. Aliás, um ótimo meme que vi foi que a justiça inglesa absolveu Paquetá pra prejudicar o Brasil na Copa, e parece que por enquanto tá dando certo.

No segundo tempo o jogo equilibrou, mais pela baixa de intensidade de Marrocos, que visivelmente cansou, do que por qualquer mérito do Brasil. No fim, Alisson não teve uma grande defesa o jogo todo. Não tivemos bolas na trave. Mas também não fizemos outro gol.

E tenho que evidenciar que Endrick não entrou. O cara com mais aproveitamento decisivo com a camisa amarela nos últimos dois anos não teve chance. Mister Ancelotti precisa rever isso. Igor Thiago, foi o escolhido pra ser o centroavante titular, com Vini Jr e Raphinha. Vini se salvou pelo gol, mas os demais foram muito mal e os substitutos foram no máximo "menos piores".

Dois destaques jogo:
fonte: Instagram
O primeiro foi Ayyoub Bouaddi, do Marrocos. Nascido na França, é mais um dos 17 jogadores dessa seleção que nasceram fora e optaram defender o Marrocos por suas raízes. Cria da base do Lille, time francês com bons resultados recentes, está na mira do Arsenal para próxima janela. Os número dele (by Sofascore, reproduzido por Fabrizio Romano) no jogo foram dignos de gente grande: 91% de passes certos! 

O outro foi Alexandre Pato. Sim, aquele que 20 anos atrás todo mundo achava craque, mas que não gostava da vida de boleiro. Daí eu dou contexto: eu sou do tipo que me irrito com o delay, então fui ver o jogo no SBT, porque ainda tinha Galvão e Mauro Beting. E me deparo com Pato ali também como comentarista, (poderíamos dizer que só tá ali porque é marido da herdeira). Mas olha, foi humilde, falou pouco, sempre que falou trouxe coisa útil, analise boa, discordou do Galvão sobre lances no campo que só quem jogou tem aquela visão, e tinha interpretações sobre as decisões de Ancelotti que só um insider teria. Lembremos, ele foi treinado pelo italiano nos tempos de Milan, alguns bons anos.


Agora, que venha o Haiti. Ao fim do jogo os comentários foram : "ficará em primeiro quem fizer mais gols no time caribenho". Mas quem assistiu o jogo deles contra Escócia, viu que eles venderam bem caro o 1x0. Sei não se vai ser esse baile todo... 

Na minha opinião, só se tivermos o Endrick. E talvez o Ney.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

De volta

 Quatro anos se passaram. Na verdade, três e meio pra ser mais preciso.

Mais uma Copa do Mundo chegou. Dessa vez, a maior de todas (até hoje): 3 países-sede, 48 seleções, 104 jogos, 39 dias. 

E com esse tamanho todo uma promessa implícita: vai ter jogo aleatório, vai ter surpresa, vai ter polêmica. Muito de tudo. Eu volto aqui pra ser mais uma voz nesse barulhão, sem compromisso de imparcialidade e sem vergonha de ter opinião.

Mas antes de falar de futebol, essa Copa já tem história.

Pela primeira vez, um país oficialmente em guerra está entre os organizadores. E pra não deixar a situação simples demais, o país adversário dessa guerra vai jogar na mesma Copa. A Copa do Mundo sempre foi o lugar onde poder e influência tentavam se reproduzir dentro das quatro linhas. Desta vez parece que isso vai extrapolar o campo, literalmente.

O Irã vai jogar nos Estados Unidos e dormir no México todo dia, por questões de segurança. Um árbitro somali teve entrada negada no país-sede mesmo portando passaporte diplomático. Gente da imprensa brasileira já encarou problemas na imigração. Já temos uma gama de assuntos bem ampla, sem depender de uma bola redonda.

foto: Fifa

Pro Brasil, a Copa sempre tem um mística. Já foi bem maior, é verdade, mas ainda tem. É o momento da existência onde todo brasileiro tem um opinião, todo brasileiro tem certeza que faria melhor, e jura de pé junto que é super racional e preciso em suas decisões. Mas dessa vez, as decisões não estarão a cargo de um Brasileiro. Vamos ter que confiar num italiano. Sim, alguém da Italia, país que não via pra copa desde 2014. 

Eu particularmente sou fã de Carlo Ancelotti. to com fé que ele vai fazer um bom trabalho. Mas ele já tem "garantido" contrato nessa copa e na próxima, então não to ainda a ponto de cravar se o bom trabalho virá já nesse mês. 

Já começou com uma bela polêmica envolvendo um jogador que divide opiniões. Ancelotti não tinha chamado Neymar desde que chegou. Foram meses de especulação, dados de GPS vazados, declarações do próprio jogador dizendo que a exclusão era técnica e não física. No fim, o técnico italiano decidiu convocá-lo. 

foto: Divulgação/CBF

A torcida que queria o Neymar, a que não queria e a que já tinha desistido de ter opinião sobre o assunto ficaram igualmente confusas com a convocação. Ancelotti disse que pode usá-lo um minuto, cinco, noventa ou nos pênaltis. Ou seja: não sabe. Ou sabe e não conta. De qualquer forma, o Menino Ney está lá.

Bem gente, O compromisso aqui é o mesmo de sempre: falar de tudo que der, sem a pretensão de falar de tudo, sem compromisso de escrever todos dia, mas tentando sempre.

Obrigado a quem esteve aqui nos últimos dezesseis anos, e bem-vindo a quem chega agora. 

Boa Copa a todos.