Bem, aqui tínhamos também nossa mitologia a ser enfrentada: a Noruega carrega o posto de única seleção que já enfrentou o Brasil em partidas oficiais e nunca perdeu. NUNCA.
O brasileiro gosta de um tabu, especialmente quando é a favor. Quando é contra, acaba pesando ainda mais. Até novembro do ano passado, mais um país, o Senegal, também carregava esse posto. Mas a Seleção, já sob comando do mister Ancelotti, quebrou esse tabu numa vitória por 2x0. Era um ponto que nos levava a acreditar que esse também poderia ser quebrado.
O primeiro tempo começou com um susto, gol deles, mas em jogada irregular. A resposta veio à altura: aos 9 minutos, Matheus Cunha é derrubado na área, e depois de análise do VAR, o juiz marca pênalti. Aqui, uma grande polêmica do jogo: Vinícius Jr dá a bola pra Bruno Guimarães bater, e ele para nas mãos do goleiro Nyland, numa cobrança ruim. Justamente ele, que era o motor desse time até ali, perdeu o brilho nesse momento. Depois do jogo, a justificativa do técnico foi que o percentual de acertos dele era maior do que o de Vini. Mas ele tinha batido 3 pênaltis, e o atacante, 19, no mesmo período.
O time até manteve o ritmo, e até os 40 minutos foi dominante, criando mais 3 ou 4 chances claras, com Vini, Martinelli e Matheus, mas errando o último passe ou parando num goleiro inspirado.
| Reprodução CazeTV |
Então, já ao final do primeiro tempo, parecia que o troll estava acordando. Haaland, a grande estrela do time, 1,93 m, cabelo longo e loiro (segundo dizem, recomendação de Zlatan Ibrahimović no início da carreira), com uma feição nada agradável, aparece em desvios importantes que dão trabalho ao goleiro Alisson. Odegaard, o cara mais pensante, também gera oportunidades e exige defesas difíceis do nosso arqueiro.
No segundo tempo, o começo até parece promissor. Endrick entra na primeira metade, recebe uma bola de Vini Jr, sai cara a cara com o goleiro, tira dele, mas a bola vai pra fora. E a última grande cena dele nessa Copa é ele no chão, com cara de inconformismo pelo erro cometido. Logo antes da parada para hidratação, Ancelotti faz mais duas mexidas, e põe Neymar e Danilo (o Santos), tirando Rayan e Martinelli. Errado fazer isso logo antes da parada, e dar tempo do técnico adversário reorganizar o time. E tirou o Endrick do centro pra deixar o Ney, colocando-o na ponta, fora do seu melhor rendimento.
Antes dessa mexida, o jogo tinha um meio de campo disputado, muito povoado, com Rayan e Martinelli voltando bastante, atuando no apoio. Depois, o Brasil perdeu completamente o embate. Vini Jr já não volta. Endrick não volta. Neymar, nem se fala. Ali o fiorde ficou gigante, estremeceu, e armou uma avalanche em cima dos que tentavam ultrapassá-lo.
| Reprodução/Instagram @herrelandslaget |
A Seleção até tentou, criou uma ou outra oportunidade, mas nada contundente. Não tinha nenhum domínio do meio-campo, e não conseguia dar medo. Aí, aos 45, o troll recebe de novo, sem marcação, no bico da grande área, dá uma ajeitadinha, chuta muito forte, sem chance de defesa. E sela o destino brasileiro.
No final, já com 45+7, Casemiro sofre outro pênalti. Neymar bate e marca. Mas ainda quis tirar satisfação com Nyland, mostrar "quem ele era". Sinceramente, ele selou o retrato de uma geração do Brasil que até tinha talento, mas achou que era muito mais do que conseguiu mostrar que era. Geração que teve lampejos de brilho, chances interessantes, mas que sempre quis se impor pela tradição e pela fama mais do que pela bola. No fim, ganhou de consolação um gol de pênalti, pra dizer que fez o gol e não saiu com o placar completamente vazio, mas que não vale tanta coisa.
É a queda mais precoce da Seleção desde 1990, quando também caímos nessa fase, pra Argentina. E em 2030 vamos completar 28 anos sem título, o maior jejum desde que aprendemos a ganhar.
A mitologia segue mais forte, os trolls seguem assustando quem encara os fiordes sozinho. O tabu está mantido, a Noruega nunca perdeu para o Brasil. Fica também um consolo pequeno: Rayan e Endrick mostraram que, quando chegar a montanha nova pela frente, tem gente nova com força pra escalar.
| reprodução: X.com/oledobrasil |
Fica ainda uma desconfiança que não se dissipa: a de saber que, a priori, Carlo Ancelotti segue no comando até a próxima Copa. Ele chegou como resolução pra todos os problemas, e até destravou um outro tabu em novembro, é verdade. Entrou de cabeça na cultura, e foi emblemático vê-lo cantando o hino brasileiro durante os jogos. Mas será que em 4 anos ele será capaz de absorver o que 210 milhões sentem há 28?
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