terça-feira, 16 de junho de 2026

Dia #5 - Vozinha, Tordesilhas e o dia do empate

 Cabo Verde, na minha mais antiga memória, era a ilha usada pra definir que 370 léguas a oeste dela existiria uma linha imaginária, que dividia as terras do novo mundo entre o Reino de Portugal e a coroa Espanhola. O chamado Tratado de Tordesilhas.

fonte: Getty Images
Hoje, Cabo Verde é a terra de Vozinha, "guarda-redes" de 40 anos, que para o futebol é realmente um vovô. Terra de pouco mais de 500 mil pessoas, que formou uma equipe brava e segurou com maestria uma gigante. A mais favorita ao título, na cabeça de uns. Cabo Verde apresentou um time guerreiro, que ninguém conhecia, muito bem postado taticamente.

Foi um jogo desses que a Copa do Mundo nos promete, e a gente tem o privilégio de estar vendo. Sim, é verdade que a Espanha jogou muito mal. Não consigo nem dizer que entrou de salto alto. Algumas poucas infiltrações do folclórico Cucurella, que usava seus cabelos esvoaçantes pra cabecear bola pro meio da área, foram as melhores tentativas europeias, sempre parando nas mãos de Vozinha. Lamine Yamal, a grande estrela, voltando de lesão ficou no banco. Certamente o técnico De La Fuente acreditou que não ia precisar dele para conseguir a vitória. Mas foi só quando ele entrou (e estreou em Copas do Mundo), aos 26 minutos do segundo tempo, depois da segunda pausa pra hidratação, que a Fúria levou perigo mais intenso. Sempre parando nas mãos de Vozinha.

Mas nesse momento, tirando os 50 milhões de espanhóis, o resto do planeta estava todo torcendo pra Cabo Verde. E o time segurou bravamente o empate, quase marcando no final inclusive.

O empate teve sabor de uma grande vitória. Um 0 a 0 que fica na memória. E que teve até um recorde que entrou para a história das Copas: Cabo Verde fez apenas UMA FALTA o jogo todo. Só uma.

fonte: Opta, via Bruno Imaizumi, no Linkedin

No fim, Vozinha e seus companheiros deixaram mais uma marca na história, dessa vez a 1156 léguas a oeste da ilha de Cabo Verde (distância da ilha até Atlanta, segundo o Claude).

Preciso deixar um registro típico desses tempos: ao final do jogo, o Casemiro, na transmissão da CazéTV, puxou um "mutirão" pra aumentar os seguidores no Instagram do goleiro caboverdeano. Que eu consegui acompanhar, saiu de 391 mil no apito final para mais de 1 milhão, em 4 minutos. Mas sei que às 8 da noite já eram 3,4 milhões. E apareceram vários perfis no mundo inteiro querendo entender o fenômeno que aconteceu com esse personagem.

A Espanha, agora, continua vivendo a sua maldição dos campeões. Com o de hoje, são 12 jogos desde o título em 2010 em terras africanas. E somente 3 vitórias.

Essa história de Cabo Verde é a maior história da Copa até aqui. Mas o dia teve outras crônicas que valem ser registradas. Hoje foi proibido ganhar: 4 jogos, 4 empates.

Além de Espanha e Cabo Verde, tivemos Bélgica 1x1 Egito: a eterna geração de ouro belga sofreu pra chegar no empate, e continua decepcionando.

Arábia Saudita 1x1 Uruguai, com os Sauditas surpreendendo mais uma seleção sul-americana. (lembram disso?). Aliás a liga saudita cheia de estrelas tá começando a render frutos, não?

E Irã 2x2 Nova Zelândia. Esse último jogo do dia merece mais registros. Primeiro, o fato de o Irã ter entrado em campo depois de todo o contexto de guerra. Jogaram em Los Angeles, mas dormiram no México. Segundo, a Nova Zelândia, mais organizada do que o esperado. Vale o registro que nessa 3ª participação em Copas do time All White — que estava de preto —, o time soma 7 jogos, 4 empates (como esse aqui) e 3 derrotas, todas em 82. Pode dizer que não perde um jogo de Copa há 44 anos...

domingo, 14 de junho de 2026

Dia #3 - Estreia

 Todo mundo esperava um jogo difícil. Mas não tanto.

A seleção marroquina é bem ajeitada, troca passe curto, domina o espaço, mas também agride. Hakimi, Bouaddi e Brahim Diaz são a espinha dorsal de um meio campo consistente.

Do nosso lado, Casemiro estava numa tarde horrenda, Paqueta idem. Bruno Guimarães fazia o básico com dificuldade, o que na conjuntura, já era uma conquista.

Brasil foi dominado no começo do jogo. Tentou alguma correria no ataque, sem nenhuma organização. Marrocos dominava, trocava passes, envolvia, chegava. Não tenho medo de repetir André Kfouri e dizer que foram os piores 30 minutos iniciais do Brasil desde aquela fatídica tarde do 7 a 1, guardadas as devidas proporções.

Quando a Seleção esboçava mais volume no ataque, ainda que sem muita ordem ou intenção, o bom Brahim Diaz acha um lançamento em profundidade. Ibanez e Magalhães ambos fazem o giro de forma errada, o buraco entre eles se forma, Saiabri desponta em velocidade, e com um toque encobre Alisson sem chance de reação. Bonito gol. Vantagem africana.

Marc Atkins / Getty Images

Com a vantagem, o time africano se solta ainda mais. O Brasil não conseguia trocar 3 passes consecutivos, dependia de bola espirrada e correria. Aos 32, em mais uma bola assim, Vinicius Júnior, que até então tinha tocado na bola uma vez apenas, deixou aflorar a malemolência do brasileiro, corta pra dentro depois de chegar na linha de fundo, e faz o gol.

Nesse momento, Marrocos sentiu. O Brasil equiparou. Aqui pra nossa sorte pesou a diferença entre Brasil e Alemanha, e conseguimos controlar, e não descambar como foi naquele dia em BH. Legal essa arte que foi pra transmissão, com a intensidade de cada time em cada momento do primeiro tempo, e como os gols pesaram nisso.

fonte: transmissão oficial


Ancelotti volta com duas substituições no intervalo. Fabinho por Casemiro, Danilo por Ibanez.
Mais duas com 7 minutos. Matheus Cunha por Igor Thiago, Luiz Henrique por Paquetá. Aliás, um ótimo meme que vi foi que a justiça inglesa absolveu Paquetá pra prejudicar o Brasil na Copa, e parece que por enquanto tá dando certo.

No segundo tempo o jogo equilibrou, mais pela baixa de intensidade de Marrocos, que visivelmente cansou, do que por qualquer mérito do Brasil. No fim, Alisson não teve uma grande defesa o jogo todo. Não tivemos bolas na trave. Mas também não fizemos outro gol.

E tenho que evidenciar que Endrick não entrou. O cara com mais aproveitamento decisivo com a camisa amarela nos últimos dois anos não teve chance. Mister Ancelotti precisa rever isso. Igor Thiago, foi o escolhido pra ser o centroavante titular, com Vini Jr e Raphinha. Vini se salvou pelo gol, mas os demais foram muito mal e os substitutos foram no máximo "menos piores".

Dois destaques jogo:
fonte: Instagram
O primeiro foi Ayyoub Bouaddi, do Marrocos. Nascido na França, é mais um dos 17 jogadores dessa seleção que nasceram fora e optaram defender o Marrocos por suas raízes. Cria da base do Lille, time francês com bons resultados recentes, está na mira do Arsenal para próxima janela. Os número dele (by Sofascore, reproduzido por Fabrizio Romano) no jogo foram dignos de gente grande: 91% de passes certos! 

O outro foi Alexandre Pato. Sim, aquele que 20 anos atrás todo mundo achava craque, mas que não gostava da vida de boleiro. Daí eu dou contexto: eu sou do tipo que me irrito com o delay, então fui ver o jogo no SBT, porque ainda tinha Galvão e Mauro Beting. E me deparo com Pato ali também como comentarista, (poderíamos dizer que só tá ali porque é marido da herdeira). Mas olha, foi humilde, falou pouco, sempre que falou trouxe coisa útil, analise boa, discordou do Galvão sobre lances no campo que só quem jogou tem aquela visão, e tinha interpretações sobre as decisões de Ancelotti que só um insider teria. Lembremos, ele foi treinado pelo italiano nos tempos de Milan, alguns bons anos.


Agora, que venha o Haiti. Ao fim do jogo os comentários foram : "ficará em primeiro quem fizer mais gols no time caribenho". Mas quem assistiu o jogo deles contra Escócia, viu que eles venderam bem caro o 1x0. Sei não se vai ser esse baile todo... 

Na minha opinião, só se tivermos o Endrick. E talvez o Ney.