quarta-feira, 1 de julho de 2026

Dia #19 - A vez do Monte Fuji

Passamos a terra de montanhas, conquistamos as terras altas. A subida ficou mais íngreme agora, com uma resistência colossal, a possibilidade de tremores no percurso e um vulcão adormecido. O obstáculo agora é o Monte Fuji.

O Japão no futebol é praticamente um filho do Brasil. A influência do Zico e Alcindo (o careca cabeludo) é sabida e notória. O grande êxodo de jogadores durante os anos 90 moldou o que é a competitividade da J League (liga principal de lá). Mas oficialmente, temos apenas uma derrota para eles. Exatamente o último jogo, e já com Ancelotti no comando.

Etsuo Hara/Getty Images

Apesar disso, o jogo veio cercado de muito otimismo. A forma como acabou o jogo contra a Escócia entusiasmou a opinião pública (e também os jogadores), e o bordão "tão deixando a gente sonhar" começou a aparecer cada vez mais forte.

No começo do jogo, parecia que uma vitória seria bem natural. O volume de jogo era todo brasileiro, sempre no ataque. Mas sempre contra um time japonês muito compactado, com uma linha de 5, uma linha de 4 e um jogador na frente atrapalhando a saída. A Seleção se comportava como um alpinista bem disciplinado, um passo de cada vez. Um pouquinho mais pra cima a cada minuto, parecia mesmo que era questão de tempo chegar ao cume.

Mas toda subida de verdade tem aquele trecho que você tem certeza que vai rolar morro abaixo. Não só isso, você escorrega, perde altura, se esforça pra se segurar, mas no caminho se rala todo. E foi isso que o time sentiu quando, aos 29 do primeiro tempo, num erro de Danilo, o meio-campista Sano sai em disparada e chuta de meia distância uma bola inalcançável pra Alisson.

O resto do primeiro tempo foi de contenção de danos, se segurando pra não escorregar mais.

No intervalo, Endrick entra no lugar de um Paquetá machucado. Voltam também todos os outros, incluindo um Danilo perdido e um Casemiro cansado, com meio Brasil irritado com ele.

Ter Endrick tanto tempo em campo trazia uma nova esperança. Ele começa mudando o ímpeto, e o time volta ao ritmo de escalada pra cima. Mas o Japão era 100% atrás da bola, a sensação era a desse meme aqui:

reprodução: Facebook

Pra furar, tentávamos lampejos de bolas cruzadas de ponta a ponta seguidos de toques no meio da área, numa área bastante congestionada. Num desses, Casemiro, o mesmo sonolento do primeiro tempo, cabeceou de peixinho e o zagueiro japonês tirou em cima da linha, contando com um lampejo de sorte. Tava impossível atravessar a muralha!

No lance seguinte (aos 9 do segundo tempo), Vini Jr vai até o fundo, toca pra trás pra Gabriel Magalhães, que cruza na medida, e lá está Casemiro de novo, decidindo no alto pela segunda vez em poucos minutos. Dessa vez sem goleiro pra salvar. 34 anos, e ainda é ele quem aparece na hora exata. Ignorando as críticas. Segundo jogador mais velho da história a marcar pelo Brasil numa Copa, atrás só do Bebeto.

Com o jogo empatado, o Brasil mantém o momento bom e continua no ritmo de ascensão. E isso é ditado por um motor chamado Bruno Guimarães, o BG. Ele é, sem dúvida, o melhor jogador desse time na Copa, mais até que o Vini. É ele que dita o ritmo, marca o passo da subida.

A pressão continuou. No lance seguinte, Vini Jr dribla vários zagueiros e toca tirando o goleiro, mas ela bate caprichosamente no pé da trave. seria o gol mais bonito da copa até aqui.

A escalada que continuava, todo mundo já procurava o posto de segurança pra descansar, antes do novo sprint que viria na prorrogação. Mas Ancelotti queria acabar com o jogo ali, italiano tem trauma de pênaltis. Põe em campo Martinelli, quando todo mundo pedia Neymar. Ele mandava pressionar. O Brasil sufocava um bravo time japonês.

REUTERS/Annegret Hilse

Aos 50, Endrick corre pela direita, em mais uma tentativa que angariava atenção de mais de um zagueiro, mas não gerava perigo real. Só que nessas, o time todo sobe. Rayan pressiona depois de Endrick perder a bola, rouba, acha o maestro Bruno no meio da área. Quando qualquer jogador chutaria no desespero, ele acha Martinelli, rola a bola pra ele depois da marca do pênalti, e não chuta forte, coloca cruzado. A bola caprichosamente toca na trave oposta e entra.

Bandeira fincada no topo do Fuji, já escurecendo, time exausto, mas em pé. Brasil nas oitavas. Que venha Haaland, a Noruega.

O melhor meme depois não podia ser outro: eu teria tirado o Casemiro no intervalo. Eu não teria colocado o Gabriel Martinelli. Por isso que acordei terça e fui trabalhar num escritório, e Carlo Ancelotti tá nos EUA dirigindo a seleção.

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