sábado, 18 de julho de 2026

Dia #38 - O professor, o aluno, e a ironia de um banho.

Eu ainda não tô muito pronto pra falar do Messi. O que ele tem feito nesse Mundial reforça a natureza extraterrestre dele, e acho que vou, pela primeira vez, falar de alguém no off-season deste blog, depois da Copa. Mas no que muitos chamaram de Copa dos Protagonistas, ele certamente é o grande protagonista desse time argentino.

foto: Joan Monfort
Agora, quem é o protagonista do bom time espanhol? Muitos diriam que é a classe do Rodri, outros a raça do Cucurella, mas a maioria diz que é Lamine Yamal. Ele, porém, ainda não desabrochou de verdade nesse Mundial. Fez o primeiro gol da Espanha na Copa, sim, mas só no segundo jogo, e segue devendo aparecer como grande destaque numa partida decisiva. É personagem, sem dúvida, e a icônica foto que reapareceu na Euro 2024 só alimenta mais essa história (deixo o link pra quem quiser se aprofundar, vale a pena). Mas, do ponto de vista futebolístico, o que dá pra dizer é que ele está cumprindo muito bem a função tática dentro de uma seleção espanhola bem arrumada.

E é aí que mora o ponto: postura tática é a grande chave dos dois times que chegaram à final.

A Argentina tem tática consistente, mas peca em alguns momentos, talvez pesando a média de idade mais alta do elenco. Ainda assim, consegue manter a calma e, principalmente, a postura em campo quando precisa. Não é normal. Mesmo devendo no placar, faz pressão de forma consistente e objetiva, com cadência de passe e tentativas de entrada das mais diversas. Foi assim pra desbloquear a entrada de Messi contra Cabo Verde. Foi assim pra encontrar os 3 gols contra o Egito. De novo assim pra se impor mesmo jogando pior contra a Suíça, quando veio a vantagem numérica. E na fatídica semifinal contra os ingleses, intensificou a postura ofensiva, respondeu ao adversário que resolveu só se defender, e usou da genialidade de dois grandes astros (o chute de Enzo, o cruzamento de Messi) pra marcar aqueles gols.


Já a tática em si é a grande marca da Espanha. Tomou um susto na estreia contra Cabo Verde, mas dali em diante não teve mais nenhum soluço. Entrava em campo, aplicava o que tinha treinado, saía vitoriosa. Às vezes o resultado vinha com muita tranquilidade, como contra Áustria e Bélgica. Às vezes na insistência, como contra Portugal. E na semifinal, o que dizer. O mundo inteiro dizia que a França era o melhor time desde o Brasil de 70, mas no fim pareceu o Brasil de 82: muito talento, sem capacidade de execução quando o negócio pegou de verdade. A Espanha não tomou conhecimento, fez um jogo extremamente seguro, ganhou sem hesitação. O primeiro chute francês no alvo só saiu na metade do segundo tempo, perto da parada de hidratação.

O que não aparece tanto é o mérito de quem construiu essa tática, de quem trouxe os dois times até aqui: os técnicos Lionel Scaloni e Luis de la Fuente.

Apesar dos quase 10 anos de diferença de idade, a relação entre os dois é bem mais próxima do que uma final costuma sugerir: Scaloni foi aluno de De la Fuente no curso preparatório de treinadores, na Espanha. Os dois assumiram suas seleções em momentos turbulentos das respectivas federações. Scaloni chegou pouco antes do ciclo passado e já tem uma Copa no currículo. De la Fuente passou por toda a base espanhola antes de virar treinador principal, e conhece boa parte do elenco atual desde moleque.

foto: ESPN/Getty Images

Enquanto Messi e Yamal protagonizam as narrativas na frente das câmeras, essa outra dupla ta frente a frente, quase sem holofote nenhum: o professor e o aluno, De la Fuente e Scaloni, dois caras que se admiram publicamente, que se cumprimentam com respeito de sala de aula, estão no auge da tensão, prestes a disputar a partida mais importante das suas carreiras.

Futebol tem dessas ironias bonitas. Um dia vc pode estar dando banho numa criança, ou dando aula pra um jovem aluno, e no outro, de frente com ele disputando quem vai ficar pra história.

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